Dos Digital Twins aos Sistemas Autónomos de Sustentabilidade: estaremos a criar os
próximos gestores digitais?
Quando comecei a trabalhar em projetos ligados à energia e sustentabilidade, acreditava que o maior desafio estava na recolha de dados. As organizações tinham poucos sensores, pouca informação histórica e uma capacidade limitada para acompanhar os seus consumos.
Parecia lógico assumir que, quanto mais dados conseguíssemos recolher, melhores seriam as decisões. Com o tempo percebi que o problema era bastante mais complexo.
Hoje, muitas organizações já possuem uma enorme quantidade de informação. Municípios, empresas industriais, hospitais ou universidades recolhem diariamente milhares de registos provenientes de sensores, contadores inteligentes, plataformas de gestão técnica, sistemas financeiros e aplicações operacionais. O desafio deixou de ser a falta de dados.
O verdadeiro desafio passou a ser transformar essa informação em conhecimento útil e, mais importante ainda, em ação. É precisamente neste contexto que acredito que estamos a assistir ao nascimento de uma nova geração de sistemas inteligentes.
Da monitorização à decisão
Durante décadas, a tecnologia ajudou-nos essencialmente a observar aquilo que estava a acontecer.
Primeiro surgiram os sistemas de monitorização. A sua função era simples: recolher informação e disponibilizá-la aos utilizadores. Mais tarde apareceram os dashboards e as plataformas de Business Intelligence, que permitiram organizar grandes volumes de dados através de gráficos, indicadores e relatórios. A informação tornou-se mais acessível, mas a responsabilidade pela análise e pela decisão continuava a ser inteiramente humana.
Nos últimos anos assistimos à evolução para sistemas mais sofisticados. Os Digital Twins permitiram criar representações digitais de edifícios, equipamentos e infraestruturas, possibilitando simulações e análises que antes exigiam estudos demorados. Pela primeira vez deixámos de olhar apenas para o passado e começámos a explorar cenários futuros.
Mas mesmo neste novo paradigma existe uma limitação importante. Os sistemas continuam a depender de alguém que interprete os resultados e tome decisões.
O problema da capacidade humana
Imagine um gestor energético responsável por cem edifícios municipais.
Cada edifício possui consumos elétricos, consumos térmicos, equipamentos AVAC, sistemas de iluminação, produção fotovoltaica e dezenas de sensores. Todos os dias são produzidos milhares de pontos de dados.
Mesmo com os melhores dashboards do mundo, existe um limite inultrapassável: a capacidade humana de análise.
Nenhum profissional consegue acompanhar permanentemente todas as variáveis, todos os alertas e todas as oportunidades de otimização. Em consequência, muitos problemas só são descobertos quando já produziram impacto financeiro ou operacional.
Uma avaria é identificada tarde demais.
Um desperdício energético mantém-se durante semanas.
Uma oportunidade de poupança passa despercebida.
Não por falta de competência dos profissionais, mas simplesmente porque a quantidade de informação ultrapassa a capacidade de análise disponível.
Um novo paradigma
Foi precisamente esta reflexão que me levou a interessar pelo conceito de Sistemas Autónomos de Sustentabilidade.
Ao contrário dos sistemas tradicionais, o objetivo não é apenas apresentar informação. O objetivo é participar ativamente no processo de decisão.
Podemos imaginar estes sistemas como colaboradores digitais especializados. Tal como um técnico experiente observa comportamentos, identifica padrões e sugere ações corretivas, um sistema autónomo procura fazer algo semelhante utilizando algoritmos, modelos preditivos e agentes inteligentes.
A diferença é que consegue analisar milhares de variáveis em simultâneo e fazê-lo continuamente, sem interrupções.
Em vez de esperar que alguém procure um problema, o sistema procura-o autonomamente.
Em vez de aguardar por uma análise manual, gera recomendações contextualizadas.
Em vez de reagir apenas ao passado, procura antecipar o futuro.
O exemplo de uma piscina municipal
Uma piscina municipal constitui um excelente exemplo para ilustrar este conceito.
Imagine que o consumo energético começa a aumentar gradualmente ao longo de várias semanas. O aumento não é suficientemente elevado para gerar um alerta imediato, mas é
consistente. Um gestor humano poderá não reparar no padrão, especialmente se estiver responsável por múltiplas instalações.
Um sistema autónomo pode analisar continuamente o comportamento do edifício, comparar os consumos com o histórico, cruzar informação meteorológica, verificar o estado dos equipamentos e identificar que existe uma probabilidade elevada de uma anomalia operacional.
Mais importante ainda, pode estimar o impacto financeiro da situação e sugerir ações específicas para investigação ou correção.
O foco deixa de estar na monitorização.
Passa a estar na capacidade de intervenção.
O papel dos agentes de Inteligência Artificial
Grande parte desta evolução está a ser impulsionada pelo aparecimento dos agentes de Inteligência Artificial.
Enquanto os modelos tradicionais respondem a perguntas quando solicitados, os agentes possuem um comportamento mais proativo. Conseguem consultar múltiplas fontes de informação, executar tarefas, colaborar entre si e acompanhar objetivos ao longo do tempo.
Num contexto de sustentabilidade, podemos imaginar agentes especializados em diferentes áreas.
Um agente energético analisa consumos e identifica oportunidades de poupança.
Um agente de manutenção acompanha o estado dos equipamentos e estima riscos de avaria.
Um agente financeiro avalia o impacto económico das medidas propostas.
Um agente de sustentabilidade monitoriza emissões e indicadores ESG.
Em conjunto, estes agentes podem contribuir para uma visão muito mais abrangente da organização do que aquela que qualquer sistema isolado consegue oferecer.
Entre a autonomia e a confiança
Naturalmente, a ideia de sistemas capazes de tomar decisões gera sempre alguma resistência.
Afinal, estamos a falar de organizações, infraestruturas e recursos financeiros. É pouco provável que os gestores aceitem entregar decisões críticas a algoritmos sem supervisão humana.
Na minha opinião, a evolução não acontecerá através de uma substituição repentina das pessoas. Será um processo gradual.
Primeiro surgirão sistemas capazes de recomendar ações. Depois sistemas que executam tarefas simples e repetitivas.
Mais tarde veremos sistemas com níveis crescentes de autonomia operacional. A confiança será construída através da demonstração contínua de valor.
Tal como hoje confiamos em sistemas de navegação para sugerir rotas ou em plataformas financeiras para detetar fraudes, começaremos progressivamente a confiar em sistemas inteligentes para apoiar decisões relacionadas com energia e sustentabilidade.
Sustentabilidade como problema de decisão
Uma das conclusões mais interessantes a que cheguei nos últimos anos é que muitos desafios da sustentabilidade não são problemas tecnológicos.
São problemas de decisão. As organizações sabem que precisam de reduzir consumos.
Sabem que precisam de reduzir emissões. Sabem que precisam de melhorar a eficiência.
O verdadeiro desafio está em determinar onde atuar primeiro, que investimentos priorizar e quais as ações com maior retorno esperado.
É precisamente aqui que os Sistemas Autónomos de Sustentabilidade podem desempenhar um papel transformador.
Não porque substituem o conhecimento humano. Mas porque ajudam a direcioná-lo para os problemas e oportunidades mais relevantes.
Conclusão
Ao longo das últimas décadas evoluímos de sistemas capazes de recolher dados para sistemas capazes de representar digitalmente ativos complexos. Os Digital Twins representam um marco importante nesta evolução, mas acredito que não serão o ponto final
da história.
A combinação entre Digital Twins, Inteligência Artificial, agentes inteligentes e automação está a criar as bases para uma nova geração de plataformas capazes de observar, analisar, aprender e agir.
Talvez ainda seja cedo para falar em gestores digitais totalmente autónomos. No entanto, parece cada vez mais evidente que estamos a caminhar para sistemas capazes de desempenhar um papel ativo na gestão da energia, da sustentabilidade e dos recursos.
A grande questão já não é se esta transformação vai acontecer.
A verdadeira questão é quão rapidamente as organizações estarão preparadas para a aproveitar