Porque os gestores não precisam de mais dashboards, precisam de melhores decisões
Há alguns anos, sempre que uma organização pretendia modernizar os seus processos, a conversa acabava inevitavelmente no mesmo ponto. Era necessário criar um dashboard. Se o problema estava relacionado com energia, criava-se um dashboard energético. Se o objetivo era acompanhar indicadores financeiros, surgia um dashboard financeiro. Se a preocupação era a sustentabilidade, aparecia mais um conjunto de gráficos, relatórios e indicadores. Durante muito tempo, esta abordagem fez sentido. A capacidade de visualizar informação representou um enorme avanço relativamente aos relatórios estáticos e às folhas de cálculo dispersas que dominavam muitas organizações. No entanto, quanto mais contacto fui tendo com projetos ligados à energia, municípios e sistemas de apoio à decisão, mais comecei a perceber uma realidade curiosa. A maioria dos gestores não sofre por falta de dashboards. Sofre por falta de tempo para os analisar.
Quando a informação deixa de ser um problema
Lembro-me de uma conversa com um responsável técnico de uma organização que utilizava várias plataformas diferentes para acompanhar consumos energéticos, manutenção de equipamentos, indicadores financeiros e relatórios operacionais. Quando lhe perguntei se sentia falta de informação, respondeu imediatamente que não. Na verdade, sentia exatamente o contrário. Todos os dias recebia novos relatórios, novos alertas e novos indicadores. Tinha acesso a muito mais informação do que conseguia analisar. O problema não estava na recolha de dados. O problema estava em perceber quais desses dados mereciam realmente atenção.
Esta é uma situação cada vez mais comum. À medida que as organizações digitalizam os seus processos, aumentam também os volumes de informação disponíveis. O paradoxo é que essa abundância nem sempre conduz a melhores decisões. Em muitos casos conduz apenas a mais complexidade.
O gestor e a sala cheia de ecrãs
Imagine um centro de controlo repleto de monitores. Cada ecrã apresenta gráficos, indicadores e alertas em tempo real. Existem dados sobre consumos, temperaturas, custos, manutenção, ocupação e dezenas de outras variáveis. À primeira vista, parece um cenário ideal. Mas existe uma pergunta importante:
Se todos os ecrãs mostrarem algo diferente ao mesmo tempo, onde deve o gestor concentrar a sua atenção?
É aqui que muitos sistemas falham. Fornecem informação. Mas não ajudam a estabelecer prioridades. Mostram o que está a acontecer. Mas não explicam o que merece intervenção imediata.
O que os gestores realmente procuram
Ao longo dos anos, tenho verificado que a maioria dos decisores procura respostas para um
conjunto muito reduzido de perguntas.
- Quais são os problemas mais importantes neste momento?
- Onde devo concentrar os meus recursos?
- Que ação terá maior impacto?
- Que decisão devo tomar primeiro?
Curiosamente, nenhuma destas perguntas exige necessariamente mais dados. Exige interpretação. Exige contexto. Exige capacidade de transformar informação dispersa em recomendações concretas. É precisamente aqui que os sistemas tradicionais começam a revelar limitações.
O caso da gestão energética municipal
Imagine um município responsável por cinquenta edifícios. Uma plataforma energética pode mostrar consumos horários, custos acumulados, indicadores de desempenho e comparações históricas para cada instalação. A informação é útil. Mas um gestor dificilmente terá disponibilidade para analisar diariamente dezenas de edifícios e centenas de gráficos. Agora imagine uma abordagem diferente. Em vez de apresentar todos os dados, o sistema identifica automaticamente os cinco edifícios com maior potencial de poupança energética, estima o impacto financeiro de cada intervenção e sugere uma ordem de prioridade. A quantidade de informação apresentada é menor. O valor para a decisão é significativamente maior.
Da visualização para a recomendação
Acredito que estamos a assistir a uma mudança importante na forma como os sistemas são
concebidos. Durante muitos anos, o principal objetivo foi visualizar informação. Hoje começamos a perceber que a visualização, por si só, não resolve o problema. O verdadeiro valor surge quando os sistemas conseguem responder a perguntas que normalmente exigiriam horas de análise humana. Por exemplo:
- Que edifício apresenta o comportamento mais anómalo?
- Que equipamento possui maior probabilidade de falha?
- Onde existe maior potencial de redução de custos?
- Que investimento terá maior retorno esperado?
Estas respostas aproximam-nos de algo muito mais valioso do que um dashboard. Apoio efetivo à decisão.
O papel da Inteligência Artificial
Grande parte da evolução atual da Inteligência Artificial está precisamente relacionada com esta mudança de paradigma. Os sistemas deixam gradualmente de ser ferramentas de visualização para se tornarem assistentes especializados. Em vez de obrigarem os utilizadores a procurar informação, passam a destacar aquilo que realmente importa. Em vez de apresentarem apenas indicadores, começam a gerar recomendações. Em vez de mostrarem problemas, começam a sugerir soluções. Não significa que os gestores deixem de decidir. Significa que passam a dedicar menos tempo à procura de informação e mais tempo à tomada de decisões.
Uma lição que aprendi nos projetos de dados
Se existe uma conclusão que retirei dos projetos em que participei ao longo dos últimos
anos é esta:
- Os dados raramente são o objetivo.
- Os dashboards também não.
As organizações não investem em tecnologia porque desejam mais gráficos. Investem porque pretendem melhorar resultados.
- Reduzir custos.
- Aumentar eficiência.
- Melhorar serviços.
- Cumprir metas de sustentabilidade.
A tecnologia é apenas um meio para atingir esses objetivos. Quando esquecemos isso, corremos o risco de construir plataformas impressionantes que ninguém utiliza para decidir.
Conclusão
Durante muitos anos acreditámos que a transformação digital passava por recolher mais informação e construir dashboards cada vez mais sofisticados. Hoje começamos a perceber que essa visão é insuficiente. Os gestores não precisam necessariamente de mais dados.
Também não precisam de mais gráficos. Precisam de sistemas capazes de destacar aquilo que realmente importa, contextualizar a informação disponível e apoiar decisões de forma eficaz.
Talvez o futuro não pertença aos dashboards mais bonitos. Talvez pertença aos sistemas que ajudam as pessoas a decidir melhor. E essa diferença pode parecer subtil. Mas muda tudo.