Porque os dados, por si só, não resolvem problemas
Durante muitos anos ouvi repetidamente a expressão “os dados são o novo petróleo”. A frase tornou-se tão popular que passou a fazer parte do discurso de empresas, consultoras e organizações públicas. A ideia parecia simples: quanto mais dados conseguíssemos recolher, maior seria a nossa capacidade de compreender a realidade e tomar melhores decisões. Quando comecei a trabalhar em projetos ligados à energia e à sustentabilidade, também acreditava nisso. Parecia lógico assumir que, se conseguíssemos recolher consumos energéticos, temperaturas, dados meteorológicos, leituras de sensores e informação operacional, seria apenas uma questão de tempo até encontrarmos oportunidades de melhoria. Afinal, os dados estavam lá. Bastava analisá-los. Com o passar dos anos percebi que a realidade era bastante mais complexa. Na maioria das organizações, o problema já não é a falta de informação. Pelo contrário. Muitas empresas e entidades públicas possuem hoje mais dados do que alguma vez conseguirão analisar. O verdadeiro desafio não está na recolha da informação, mas sim na capacidade de a transformar em conhecimento útil para apoiar decisões.
A ilusão da abundância
Imagine um município responsável pela gestão de dezenas ou centenas de edifícios. Escolas,
piscinas, pavilhões, bibliotecas e edifícios administrativos produzem diariamente informação através de faturas, contadores inteligentes, sensores e sistemas de gestão técnica. Ao longo dos anos, esta informação acumula-se em bases de dados, folhas de cálculo e plataformas digitais. À primeira vista, parece uma situação privilegiada. Existe informação para praticamente tudo. É possível saber quanto consumiu um edifício, qual foi a evolução dos custos energéticos ou qual o desempenho de determinados equipamentos. No entanto, quando surge uma questão aparentemente simples, como identificar quais os edifícios que devem ser prioritários para uma intervenção de eficiência energética, a resposta raramente é imediata. Os dados existem. O problema é que continuam dispersos, descontextualizados e, muitas vezes, difíceis de interpretar. Ter acesso a milhares de registos não significa compreender aquilo que realmente está a acontecer.
Quando a informação se transforma em ruído
Existe uma tendência natural para associarmos quantidade a qualidade. Se dez leituras são
úteis, então mil leituras serão melhores. Se um relatório é importante, então cem relatórios
serão ainda mais valiosos. Na prática, acontece frequentemente o contrário. À medida que aumenta a quantidade de informação disponível, aumenta também a dificuldade em distinguir aquilo que é relevante daquilo que constitui apenas ruído. Os gestores passam a receber mais alertas, mais relatórios e mais indicadores. Contudo, isso não significa que tenham uma visão mais clara da realidade.
Costumo comparar esta situação a alguém que entra numa biblioteca gigantesca sem
qualquer catálogo. Os livros continuam a conter conhecimento valioso, mas encontrar a
informação certa no momento certo torna-se uma tarefa extremamente difícil. Muitas
organizações vivem precisamente este problema. Possuem enormes volumes de informação,
mas pouca capacidade para os transformar em decisões concretas.
O que aprendi na área da energia
Uma das lições mais importantes que retirei dos projetos de eficiência energética foi
perceber que a recolha de dados raramente é o verdadeiro desafio. Hoje é relativamente
simples instalar sensores, integrar contadores inteligentes e armazenar milhões de registos
em plataformas digitais. O custo da recolha de informação tem vindo a diminuir, enquanto a
capacidade tecnológica continua a aumentar. O problema surge depois. Quem analisa toda essa informação? Quem consegue identificar padrões de desperdício energético entre milhares de leituras diárias? Quem distingue uma anomalia operacional de uma simples variação normal de consumo?
Estas perguntas tornam-se particularmente relevantes quando falamos de organizações com múltiplos edifícios ou infraestruturas. À medida que a escala aumenta, torna-se impossível depender exclusivamente da análise manual. É precisamente neste ponto que tecnologias como o Machine Learning começam a desempenhar um papel importante
O equívoco dos dashboards
Nos últimos anos assistimos a uma verdadeira explosão de plataformas de Business
Intelligence. Ferramentas como Power BI, Tableau ou Grafana permitiram criar dashboards
visualmente impressionantes e acessíveis a um número cada vez maior de organizações.
Estas ferramentas representam uma evolução importante. Permitem visualizar tendências,
acompanhar indicadores e comunicar informação de forma muito mais eficaz. No entanto,
existe um equívoco frequente: acreditar que um dashboard resolve automaticamente um
problema. Um dashboard pode mostrar que o consumo energético aumentou 20% num determinado edifício. Pode apresentar gráficos detalhados e indicadores atualizados em tempo real. Mas continua a existir uma pergunta fundamental que muitas vezes permanece sem resposta:
Porquê?
Compreender as causas de um fenómeno continua a exigir contexto, análise e conhecimento. O dashboard mostra o que aconteceu. A decisão sobre o que fazer a seguir continua a depender da interpretação humana ou de sistemas capazes de apoiar essa interpretação.
Da informação à decisão
Na minha opinião, a próxima fase da transformação digital não será marcada pela capacidade de recolher mais dados. Será marcada pela capacidade de transformar informação em decisões. É precisamente por isso que conceitos como Machine Learning, Digital Twins e Sistemas Autónomos de Sustentabilidade estão a ganhar relevância. O seu objetivo não é produzir mais informação. O objetivo é ajudar as organizações a compreender aquilo que merece atenção, a antecipar problemas e a identificar oportunidades que de outra forma passariam despercebidas. O verdadeiro valor não está nos dados. Está na capacidade de utilizar esses dados para agir de forma mais inteligente.
Conclusão
Durante muito tempo acreditámos que a transformação digital consistia essencialmente em
recolher informação. Hoje começamos a perceber que essa era apenas a primeira etapa de
uma jornada muito mais longa. Os dados são importantes. Continuarão a ser um ativo estratégico para qualquer organização. No entanto, representam apenas a matéria-prima. Tal como o petróleo necessita de ser refinado para gerar valor, os dados precisam de ser interpretados, contextualizados e transformados em conhecimento. As organizações que irão destacar-se nos próximos anos não serão necessariamente aquelas que possuem mais informação. Serão aquelas que conseguem transformar informação em decisões e decisões em resultados.